sábado, 2 de dezembro de 2017

Sonhos engarrafados (Crônica)


Certo dia, vi um homem que cultivava garrafas. Plantou uma árvore e, nos seus galhos, guardou sonhos mal pendurados e bebidas de outras noites. Comecei a questionar o porquê do hábito tão incomum, visto que a cena de uma árvore que dava garrafas parecia surpreender a todos que passam pela frente da casa do sujeito. Seriam as lembranças tão frágeis assim? Parei por um breve momento - que se estendeu mais do que o programado - e tentei me recordar de situações que já me ocorreram e que, por um determinado momento da minha vida, tiveram um significado e importância julgados infinitos por mim, mas que atualmente se tornam obsoletos diante de todas as outras memórias e experiências vividas nos tempos seguintes. Voltei os olhos para a árvore mais uma vez, e comecei a imaginar sobre o que cada garrafa ali contava. Um amor perdido, uma noite de boêmia, um bom jogo de dominó ou apenas um dia no qual a solidão assolou e foram necessários alguns goles para o sono conseguir chegar. É possível que uma garrafa pudesse guardar tantas lembranças?

Cansada e sem nenhuma resposta concreta, cheguei em casa e me deitei mais um pouco pra pensar sobre o acontecido. Por que deixei tantas lembranças de lado? Levantei, esvaziei uma garrafa e coloquei na janela. Quem sabe eu não esqueço dessa vez.

Beatriz Cruz
(Estudante de Letras) 

O gesto (Crônica)

Era um sábado de manhã, onze horas, e eu passava na frente de um bar Estava usando roupas sujas, rasgadas, manchadas e o rosto coberto de poeira. Eu havia acabado de acordar, tinha dormido no ponto de ônibus e estava faminto. De imediato, percebi, que um grupo de jovens estava comendo o que parecia ser um bolo muito saboroso. Me deleitei quando vi aquela imagem deliciosa do bolo de chocolate com cobertura de caramelo. Eles haviam acabado de bater parabéns para o amigo – que atendia pelo nome de Jefferson. Não resisti ao ímpeto de me aproximar e os pedi: “Senhores, sou morador de rua, tenho 23 anos e estou morto de fome. Por favor, vocês poderiam me dar algum dinheiro para que possa tomar um café da manhã digno ao menos uma vez no mês?” Não contive os meus olhos e os atirei no bolo, lindo, perfeito, tão próximo e tão distante. Nunca tinha comemorado um aniversário nas minhas longas vinte e três primaveras de existência, nunca pude dispor de algo assim por falta de recursos. Incrivelmente, meu aniversário tinha passado haviam três dias – acho que, por isso, que eu deveria estar tão fascinado com aquele bolo que nunca pude ter – e creio que meus olhos passaram aquela mensagem, porque no segundo seguinte em que respirei, o aniversariante, Jefferson, se levantou e deu a metade restante do bolo para mim. Não as contive, as lágrimas rolaram pelas minhas bochechas sujas. As pessoas ao redor, incialmente atônitas, se recompuseram no momento seguinte, levantaram-se e aplaudiram com amor, com força, com veemência e admiração. Naquele dia, eu aceitei o bolo e fui convidado para me sentar à mesa com eles. Nunca soube exatamente o que motivou aquele garoto a me convidar a participar do aniversário, talvez um aniversariante reconheça o outro, ou talvez não. Talvez os aniversários sejam mais que uma data comercial, e estejam aí para isso, relembrar as pessoas dos valores da vida. Sensibilizá-las com essa comemoração e as fazer lembrar do significado do altruísmo, da benevolência, do amor. Aquele momento me inspirou tanto, que hoje, aos 57 anos, formado, graduado, casado e pai de dois filhos, ainda lembro e escrevo com afeto sobre aquele dia, que fez do meu cotidiano pragmático e massacrante algo novo, uma nova possibilidade, que abriu os meus olhos à novos horizontes. Horizontes que me fizeram transcender a mim mesmo e a minha realidade de desigualdades sociais que me oprimia e me acuava. Desigualdade essa que fazia com que pessoas, como o Jefferson, tivessem 4 bolos de aniversário no seu dia.E eu, pobre, menino de rua, ganhasse safanões da polícia por dormir no ponto de ônibus. Mesmo assim, fui inspirado por aquele gesto do Jefferson e, como uma águia, consegui transpor as montanhas de desigualdades que me cercavam. Eu venci, graças ao bolo, graças ao Jeferson, graças ao gesto. 

Viagem Cotidiana (Crônica)

Acordo quase todos os dias às cinco e meia da manhã. Quase, porque existem aqueles dias nos quais a gente acorda meio dormindo e meio que decide colocar mais meia hora na conta do despertador. Vou trabalhar quase todos os dias. Quase, porque têm alguns dias da semana nos quais eu não trabalho mesmo. Sou muito responsável.
No meu trabalho, uma escola de idiomas bastante renomada, situada num bairro nobre de Salvador, é muito comum que no dia a dia eu me depare com relatos de viagens inesquecíveis, às vezes até contados por pessoas que nem foram na tal da viagem:
– Meu filho acabou de voltar do intercâmbio no Canadá. Lá ele morou num bairro lindo, muito arborizado, vizinhança simpática. A escola então, uhh, magnífica.
Claro que a arborização do bairro em que se vai morar no exterior é de suma importância para o bem estar do indivíduo viajante, mas não pude deixar de notar o quão corriqueira parecia ser a situação supracitada para aquela senhora, que com quarenta anos ou menos – ou mais – já havia mandado dois filhos para estudar no estrangeiro e mandaria quantos mais os tivesse, porque segundo ela “trabalhava para isso”.
Engraçado é que naquele momento me peguei pensando “eu também”. Eu também trabalho mandar alguém para o exterior: eu mesma. Atrás da minha mesa inclusive, tenho um quadro com fotos da cidade de Nova Iorque, para não me deixar esquecer os motivos pelos quais eu enfrento horas e horas de trabalho e estudo todos os dias. O grande problema de quem trabalha para mandar a si mesmo para um lugar diferente é que normalmente essa pessoa também precisa manter a si mesma no lugar de sempre. E é aí que começa o dilema:
– Viajo e perco o trabalho?
– Tranco a faculdade nas férias e viajo?
– Largo tudo e caio no mundo?
– Esqueço os planos e volto pra realidade?
Esse diálogo de mim comigo mesma, normalmente se encerra na ultima proposição. Viajar é pra quem pode se preocupar com a quantidade de árvores que um bairro precisa ter para ser agradável.



Ludine Alves, graduanda do curso de Letras, Turma 3

A Árvore (Crônica)

Toda semana, cinco vezes por semana, eu faço o mesmo caminho ao entrar e sair da faculdade. Vou por trás do refeitório e atravesso o estacionamento que há ali, andando junto às árvores.
Duma vez, eu resolvi – não sei bem o motivo, mas resolvi – contornar o refeitório pelo outro lado. E nesse caminho desconhecido me deparei com uma árvore estranhíssima.
Quase sem folhas na copa, os frutos pareciam bolas de madeira – madeira oca, suponho, pois pendiam do alto sem pesar no fino galho que os sustentava. Pior: a copa no topo da árvore era superada em tamanho e mistério por uma segunda copa, embaixo, quase ao pé do tronco.
Era difícil dizer se a segunda “copa” fazia parte da árvore ou se era uma trepadeira. Era espinhenta com uns cachos de ricos gomos amarelos e umas poucas flores rosas (talvez vermelhas) enfiadas entre os espinhos. Eu contei só três flores, fantásticas, selvagens, numa economia que só fazia crescer o extraordinário do quadro.
Os galhos da possível trepadeira eram mais como cordas que galhos. Eles se projetavam ondulantes em todas as direções, como os tentáculos mecânicos do Dr. Octopus (aquele vilão do home maranha).
A visão com que me deparei era, enfim, algo de outro mundo.
(A foto impressiona, mas não lhe faz justiça, leitor. Meu monstro, temperado pelo momento da primeira visão, era belo e terrível, como um dragão ou um grifo.)
Desde criança eu sempre amei árvores. Eu amava o pé de tamarindo e o pé de figo da casa da minha avó, e o abacateiro bem no meio do quintal da minha tia em Feira de Santana. Mas amava também todas as árvores (só as palmas e os coqueiros é que não me chamavam a atenção, exceto quando o vento os fazia curvar perigosamente na beira da praia).
Poucas vezes vi, no entanto, uma árvore tão insólita quanto aquela do outro lado do refeitório e, em mim, a surpresa de me ver subitamente transportada para um outro mundo se converteu em maravilhamento.


T. Pedreira de Oliveira Britto, graduanda de Letras, Turma 3






Papel, Burocracia e Diversidade (Crônica)

          “Bureaucratie” cuja raiz é bureau(Oficina). O conceito remete à organização que é regulamentada por normas que buscam uma ordem racional na gestão e distribuição de seus assuntos. A burocracia também é o conjunto dos funcionários públicos, sendo que nesse contexto tem uma conotação negativa: entende-se a administração ineficiente resultante de toda papelada e das formalidades(…).
O Trecho acima apresenta uma retextualização sintética para o conteúdo da página http://conceito.de/burocracia . Hiperlynk.(...)
          Estou cursando minha segunda graduação na UFBA, Letras. A primeira foi o curso de comunicação social e, acreditem, a diferença literal entre as duas é um “atravessar de ruas”, e sim a burocracia mora nos dois espaços. Como foi sofrido reunir toda PAPELADA... abrir um processo de aproveitamento de estudos em meio a toda desorganização de seus funcionários... que se de iniciativa privada fossem, quiçá, poderíamos nominá-los de colaboradores. Reza uma lenda que se a universidade fosse privada, haveria uma otimização de resultados para o Estado e a Sociedade. Whatever... amo viver a oportunidade de estar numa universidade federal, cursar e gozar da qualidade de sua formação. Gratitude. Tenho tesão em estudar línguas e esse é o “Pico”. Resultado: Conclui o envio e abertura desse processo citado – não foi fácil – e o processo foi indeferido. A burocracia não considerou por exemplo que todas as matérias ligadas a metodologia e pesquisa fossem aproveitas para eliminar a necessidade de cursar uma matéria chamada “Técnica de Pesquisa”. Maldição! (...)
          Estava eu ali diante da primeira reunião do diretório acadêmico dos estudantes de Letras no ano de 2017. Escrevo assim burocrático, porque sim... os alunos também são burocráticos e isso foi uma grande revelação de evidência nessa cena e circunstância. Motivo do encontro: “Encontro Regional de Estudantes de 2018”... após a votação e definição do tema “#SomosTodosLíngua entende-se a necessidade de criar um slogan pro evento. A decisão ficou entre “o empoderamento através do letramento” e “abraçando as letras e suas diversidades”. “Diversidade”? Precisamos falar mais de diversidade? Logo aqui no instituto de Letras, um local do diverso? E até quando a “diversidade” será tema de urgência? Dia seguinte, uma professora amiga minha disse: “Toda hora é hora pra falar de diversidade.” ALVES, Ludine. Choquei! Até ontem entendia que isso fazia parte da deontologia básica de nossas relações. Como não, faz-se aqui presente a minha solidariedade altruísta.
Solidariedade altruísta “MEU CLITORIS”! Eu também sofro com a desgraça do desrespeito a diversidade... amo fazer “Cosplay” e em casa não perco a oportunidade de me travestir. Na rua?? Imagina... o penteado da princesa Leia(Star Wars) o qual nunca pude utilizar nas ruas... sim tenho medo de ser agredido por intolerantes... algo no meu interior(lá ele) me alerta para o risco de segurança a minha integridade física. Sim, há violência contra a diversidade. Ainda não sai do armário.(...)
          Acredito que a ineficiência de resultado nas questões de diversidade, no que tange a assimilação prática ou a espontaneidade da manifestação livre do seu ser social, está na ausência de abraços. Precisamos de fato nos abraçar. No abraço entre as alteridades está a chave do nosso sucesso. O seu e o meu podem ser o nosso. E para isso estou aqui nessa fotografia do tempo, convidando você leitor, para o próximo EREL – 2018. Desculpe a antissepsia estética do modelo. É por demais a opressão dessas grandes estruturas... o corpo está maltratado. Mas juro que na próxima foto apresentarei a minha Língua pra vocês. Somos Todos Língua!


 João Carvalho, graduando em Letras, Turma 3

A GAROTA DA RODOVIÁRIA (Crônica)

Lá estava ela, como em todos os outros dias, sempre com o seu fone de ouvido, sempre séria, raramente conversa com alguém. Pela camisa do Joy Division, suponho que seja fã do Ian Curtis. Sempre mascando chiclete. Aparentemente não tem amigos, pelo menos é o que eu percebo nos quinze minutos que a vejo todos os dias.
De um certo modo, eu não conseguia tirar os olhos dela. Era como se eu estivesse hipnotizado. Não exatamente por ela, talvez pela tristeza dela. Às vezes eu penso que ela só esteja indisposta, talvez não goste de conversar logo após acordar. E, talvez, ela seja feliz, extremamente feliz, mas meus olhos a veem daquele jeito, e isso me faz refletir sobre a tristeza, e como ela está presente em todos nós. O meu carro chega, eu entro e a garota continua sentada. Sem despedidas, tenho certeza que a encontrarei novamente, com a tristeza de sempre.
Tão potente quanto a minha inércia, foi a vontade de querer ajudá-la. Eu queria poder dizer que tudo iria dar certo, que ela não deveria ficar triste por não ter um rosto perfeito, que ele era um babaca por não dar valor a pessoa que ela era. Que a melhor saída nem sempre é a mais fácil, que dor de cabeça resolve com dorflex. Caralho! Faria qualquer coisa para que aquela garota não se sentisse tão triste.
No dia seguinte, o celular dela toca. Eu conhecia aquela música, era Nutshell, do Alice in Chains. Que em um dos seus versos dizia ‘’If I can’t be my own. I’d feel better dead’’. Pronto! Aquilo tinha que ser um sinal, pausei a música que eu estava escutando para ouvir o que ela iria dizer. As vezes escutar na voz dela, um pedido de ajuda. Mas ela não disse nada, era apenas o alarme que ela esqueceu de desativar.
Com o passar dos dias, acabei notando que a garota do ponto não estava mais lá. Às vezes me pegava pensando nela, principalmente nos dias chuvosos, e, nesses dias, também pensava se a garota sucumbira ao desejo de tirar a própria vida. Se bem que eu preferiria não saber, me sentiria culpado.
Até que outro dia, ela aparece no ponto de novo. Fiquei bastante feliz por vê-la viva. Já a dava como morta. Ela vestia rosa, diferente do preto que costumava usar e, dessa vez, me pareceu um pouco (bem pouco) menos triste. Acabei sendo promovido naquele mesmo dia e fui transferido para outro local de trabalho. Nunca mais peguei o ônibus naquele ponto. Eu não vi aquela garota novamente, e nunca, nessa vida ou em outra, eu saberei o porquê de tamanha tristeza. Talvez eu estivesse louco, talvez ela já não existisse ou nunca tivesse existido. Talvez fosse apenas um reflexo de mim.


Felipe Castro, graduando de Letras, Turma 3

O INVERNO EM SALVADOR (Crônica)

            
          Um dia desses conversando com uma amiga ao telefone, ela me disse:
- Estou com um frio danado! Tremendo feito vara-verde!
Num um breve silêncio, pensei: “será que estamos na mesma cidade”? Até que gosto de temperaturas baixas, mas não consigo sentir  esse frio intenso na cidade onde vivo.
Minha amiga continuou:
- E você, como está nesse frio todo?
Ela estava tão atordoada com o frio que não parrava de falar:
- Menina, eu estou que não aguento! Nunca vi um frio desse em Salvador. Ouço até o vento cantar de minha janela – disse ela.
Respondi a minha amiga que, por enquanto, não estava sentido
frio. Aproveitei e fui logo me justificando para não parecer estranha. Disse a ela que depois de ganhar uns quilinhos deixei de sentir frio.
No dia seguinte ligou-me outra amiga:
- Oi, amiga! Muita chuva e frio no seu bairro? Aqui está demais! Estou usando duas blusas, meias e toda enrolada no edredrom.
- Nem tanto. Aqui tem chovido, mas sem frio - respondi.
- Ah! Sou muito friorenta! Basta chover que sinto logo frio.
- Você não está sentindo frio? Todos têm reclamado desse inverno.
Mais uma vez me justifiquei dizendo que ao engordar o frio ganhou pernas, foi embora.
Depois da conversa concluída, fiquei refletindo se não estou mesmo caminhando para o climatério. Se calhar é isso! Mas, especulações à parte.
Inverno é sinônimo de muita roupa, e esses dias pude constatar. Fui ao shopping pagar uma conta e quase me esbarro numa uma moça toda equipada com sobretudo, cachecol e botas over the knee. Tomei um susto! O frio chegou a Salvador e eu não percebi.
O inverno em Salvador é assim, especial! Nos permite usufruir dos prazeres do verão: caminhar na orla atlântica, saborear um acarajé ao ar livre, no Rio Vermelho, usar roupas leves e até mesmo pegar uma prainha. Para os que gostam de quebrar pernas e bocas de caranguejo até que dá. Sempre que passo próximo a um restaurante do ramo, perto de casa, percebo que continua cheio mesmo no inverno....
Enfim, o que me safa no inverno soteropolitano é o ar condicionado.



Tessa Maria S. da S. Pisconti - Graduanda de Letras, Turma 3

Dá pra separar? (Crônica)


Agradar prontamente,
dar ordens intermitentes, não querer filho doente, ouvir sugestões dos outros, deixar os filhos soltos, dialogar sempre, às vezes, conseguir abraçar todos os ideais filiais. Quem é a mamãe?
       É a submissa que nunca, nunca se irrita? É a autoritária que tem voz de comando, rígida e autoritária trazendo sua “tropa em frente, marchem!”? Ou a que deixa os filhos em casa com a babá para ir a um “vernissage”? Quem sabe?
       Podemos encontrá-la nos lugares mais díspares, nos horários mais inusitados, a fazer algo que não se imagina: Só mãe! Pode estar em casa, no portão da escola, na hora de acordar e também, às sete da manhã, na farmácia, atrás daquele xaropinho para a tosse que pode aparecer, pois chegou o inverno; no sapateiro, ao meio-dia e meia para pegar aquele tênis que foi colocado para costurar porque, “Pérola” mordeu (Ah... Pérola... cadela esfomeada que nos acompanha há... anos.)
Identificar um tipo de mãe é mistéééééério. Quem mora com ela desde que nasceu e esqueceu que aos TRINTA já está complicado deixar a cargo dela tudo que mais lhe pertence, já percebeu que mãe ADOOOOOOOOOOOOOORA cuidar de filho. Homem, então... E, salvo, aquelas que têm um perfil mais “society”, moderna, permissiva, você pertencerá a uma sádica, mãezona, supermãe, chantagista, mãe do santo, estrela e, pense, estará “alimentando a cuidadora espirituosa da sua caverna de solteirão!”.
       Às vezes, ela se esquece da própria saúde, cuidado pessoal, almoço, roupa e quem sabe de fazer a viagem dos sonhos de Natal para cuidar do “FILHÃO”!
       Bem, pensando com distanciamento, toda mãe é um misto de carinho, cuidado, amor e exagero. Só que não precisamos pensar muito em separar como ela é daquilo que queremos que ela seja, se ela é NOSSA! Dá pra separar?



Mônica Pedreira - Graduanda em Letras Vernáculas -Turma 3

Sombra Coletiva (Crônica)


Quando era criança, lembro-me de nunca passar uma hora mais prazerosa com meu pai do que quando ele tentava ver as notícias e eu o enchia de perguntas. Apesar da inocência daquela época, tinha muita curiosidade sobre como as coisas funcionavam e porque eram do jeito que eram.  Certa feita, meu herói de capa estava sentado no sofá, um grande charuto em suas mãos, assistindo o costumeiro jornal das dez, quando resolvi contar para ele o que havia aprendido na escola naquele dia.
-Hoje aprendi sobre as sombras, papai. Na verdade, fiquei curioso e perguntei à Márcia o que as sombras eram. Mas não entendi direito.
Sem ao menos tirar os olhos do aparelho televisor, ele respondeu automático:
-Sombra é uma imagem mal feita da gente, filho. Faz tudo que nós fazemos, mas sem escolher o que fazer.
Apesar de ter sido automática, e para se livrar da minha chatice habitual, essa resposta perturbou minha mente por vários dias.  No dia seguinte, devido a uma falta d’água, meu pai me levou para o trabalho com ele.
Às 07h00, entramos no ônibus exatamente com as outras pessoas faziam.
Depois, quando soltamos, corremos para entrar numa fila de pessoas, todas vestidas de modo muito parecido, aparentemente para dizer que estávamos lá.
Logo após ficarmos sentados atrás de uma mesa de escritório durante 10 horas, assim como outras dezenas de pessoas naquele recinto da empresa, saímos apressados para repetir o processo da manhã.
Após a chegada, e após a higiene e alimentação habituais, sentamos os dois no sofá, para completar o que parecia um ritual sincronizado entre os adultos.
Como ainda não estava satisfeito com uma coisa que estava martelando na minha cabeça desde o início da manhã, no ônibus, indaguei:
-Pai, seres humanos podem se tornar sombras?
Como em repetição do que havia acontecido na noite anterior, sem tirar os olhos do jornal, o progenitor, sem dar muita atenção á minha pergunta, respondeu:
-Claro que não, menino.
-Então por que você é sombra de tantas pessoas?
Mesmo tendo sido sem querer, pela primeira vez, consegui fazer meu pai prestar atenção a alguma pergunta minha.
 Se se passaram vários dias.... fica estranho ser no dia seguinte
 O último diálogo e a frase final que dá o desfecho, não parecem que estão em relação direta. Precisa resolver esta passagem da conversa do pai com o filho. A resposta profunda que o filho deu ao pai... com o que fecha o texto. Veja que não sabemos como o pai ficou depois da fala filosófica da criança: pensativo? Reflexivo? Bravo? Contente? Como o pai agiu?




Fernando Queiros - Graduando Turma 3

(Crônica)


Havia um lugar mágico. Mágico por transformar a vida das pessoas que lá entravam e lá permaneciam. Pessoas ficavam mais magras, outras cresciam e todas elas ficavam muito felizes com isso. Nesse lugar, havia um camarada muito gente fina, simpático e extremamente sociável, por isso, no fim das contas, todas as pessoas interagiram com ele. Ele era um cara extremamente marcante, não só interagia com as pessoas sem dar uma palavra, como também interagia com seus corpos: com os ombros, braços, pernas, costas e, acreditem se quiser: até com a cintura dessas pessoas, no bom sentido, é claro! 

Todos, geralmente, reclamavam da dor do dia seguinte deixada por ele, mas muito interessante, nenhuma delas deixava de novamate ir visitar aquele amigo novamente, um dia depois de tê-lo visitado, mesmo sentindo dor.
Por que ele era tão querido? Talvez fosse a autoestima gradual que ele conferia as pessoas, o estresse do cotidiano que ele ajudava a extravasar, a felicidade em não estar parado ou, até mesmo, tudo isso junto, ou quem sabe, a companhia dele era só boa mesmo.
No fim das contas, ele era um ótimo amigo: nunca te deixando desocupado ou de mãos vazias. Seu nome era halteres.
Certa vez, quando fui nesse lugar, na academia, me deparei com uma cena que me deixou desconcertado: um garoto praticava seu treino com muita voracidade com o halteres. Ele simplesmente não parava, era como se nada, em todo o mundo, pudesse pará-lo e desviá-lo de seu foco. Ele passava por diversos equipamentos e corria numa cama elástica, com muito vigor, logo após acabar seus exercícios. Era muita garra, muito foco e força de vontade.
Isso me remeteu a forma com a qual eu devo agir em minha vida: com muita perseverança e vontade de fazer acontecer, por mais que a vida e o cotidiano sejam pesados e difíceis de se ultrapassar. Quando eu o perguntei como conseguia ser tão resiliente, ele me respondeu: “tenho um objetivo e o internalizei, isso é o bastante para mim.”
E, como foi para ele, foi o bastante para mim.


O PODER DA COR (Crônica)





A vida é sempre animada com as cores. Mesmo os idosos que eu conheço, me dizem que eles preferem cores muito vivas ao redor deles para que eles vivam por mais tempo e estejam sempre felizes com a vista. Mesmos quando vou à feira, a parte que me interesse mais é qualquer parte colorida.
Foi naquele ano, eu nem posso lembrar a data própria, mas sei que foi no mês do agosto. A Festa de Agosto como era bem conhecida. Essa festa que é sempre cheia das pessoas. Eu tenho que ser visível, todo mundo tem que saber que estou lá. Então, qual vestido posso usar e em qual cor será? Eu me pergunto. Sendo uma pessoa que gosta de cores, preciso fazer uma roupa bem colorida. Penso na cor amarela, vermelha, azul, e verde, ou seja, a combinação de todas. Meu vestido tem que ser significativo. Por isso, a minha escolha de tecido tem que ser baseada nessas cores; amarela que significa alegria, serei muito feliz até o fim da festa; vermelha, embora seja associada à violência, mas ainda simboliza a paixão e amor que eu tenho por todo mundo; azul que representará harmonia, tranquilidade e serenidade do lugar; e finalmente, verde que é associada à natureza, saúde, juventude, e esperança que tudo vai dar bem.

Cheguei à feira, na parte de tecidos para escolher as minhas cores favoritas. Fiquei lá quase uma hora tentando fazer uma escolha porque todas as cores dos tecidos que eu via me deixaram louca e confusa, nem sei o que escolher. Essas cores são charmosas. O motivo era comprar um tecido só para a festa, mas acabei comprando dois por causa da influência de cores sobre mim.



ABUNDANCE UZOCHI FINEMAN - Graduanda de Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira - turma 3

A pesca em Tubarão (Crônica)

Na infância gostava de ouvir minha avó contar histórias. Uma que lembro até hoje, segundo ela, aconteceu em Tubarão, bairro onde moro, na maré próximo a nossa casa. 

 Ramos acordou cedo, tomou seu café, conferiu seus materiais de pesca e saiu em direção a maré. Passou por outro pescador que levava sua pequena rede até um barco e falava sozinho:
 – Isso aqui já foi bom, rapaz. Agora a gente acorda 5 horas da manhã e já não pega quase nada.
Ramos continuou seu caminho, seu colega o estava esperando próximo ao barco. Eles, assim como outros pescadores conhecidos, tinham o hábito de usar explosivos como bananas ou espoletas de dinamite. Um deles solta o explosivo e o outro mergulha para buscar o peixe. Eles se afastam da praia enquanto jogam conversa fora e Ramos fuma seu charuto barato. Ouve-se uma explosão que aconteceu não muito longe dali. Nas casas de estrutura antiga, próximo da beira-mar, os moradores sentem o tremor. Peixes menores morrem, mas esses não são de interesse dos pescadores, então são deixados boiando.
Eles se preparam para começar a pesca após passarem pelo que resta dos arrecifes da beira-mar, destruídos por bombas anteriores, sabendo que os barcos de fiscalização quase não passam por ali. Ramos acende o estopim, enquanto seu colega que irá buscar o peixe observa à sua volta. Ao se preparar para o barulho da explosão o colega de Ramos percebe um pouco tarde que é o charuto que não está mais no barco.


Graziele Silva de Jesus – Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira


O sorriso de uma flor (Crônica)

     Cada dia é um conjunto de segundos e minutos, os dias passam em um piscar de olhos, podem passar rapidamente. A gente tem que continuar a sobreviver e passar um dia após o outro. Os dias passam mais rápido quando se está em uma terra estrangeira. Em uma terra estrangeira, alguém se torna uma flor entre os espinhos, como esta flor, que cresceu entre flores de outra espécie, e para a vida dela, elas são espinhos. O fato de estas outras flores serem diferentes as tornam espinhos. Em uma cidade estrangeira não consigo fartar de um dia. 

       Essas flores bonitinhas são a reflexão da minha vida em uma cidade estrangeira. Uma cidade antiga, muito bonita com mistura de cultura africana, indiana e pouca de americanas. Um ambiente cheio de memórias nos seus prédios. Salvador, uma cidade no centro do estado da Bahia no Brasil, quem sabe, a cidade mais velha e popular por conta de suas antiguidades.
     Desde o primeiro dia em salvador eu tive experiências impressionantes e de outras formas, à parte dos preconceitos que brasileiros têm sobre africanos, porque sempre acham serem brancos. Parece que eles acham que África é cheio de sofrimentos, de guerra e de pessoas analfabetas.
Eu tenho que arcar com o stress do dia a dia por causa da comunicação. Eu sempre achei que sabia falar português, mas é sério!!! Reparei que não é tão fácil.
       Uma vez, eu quis comprar uma corda para meu Laptop e eu fiquei muito frustrada porque eu não consegui explicar o que eu queria. Entrei em cinco lojas até que alguém me entendesse. Os vendedores riam de mim, e eu fiquei muito chateada. Teve um deles que tentou falar minha língua ‘Inglês’, ele disse assim “I speaks Englishe”, eu ri porque ele falava inglês erradíssimo. Uma coisa interessante sobre essa experiência é que eu aprendi uma nova palavra. Foi uma oportunidade a aprender na rua.
         Outra vez, um outro acontecimento que me surpreendeu. Eu entrei uma aula de comunicação em português pela primeira vez, eu sentei ao lado de um garoto. Ele levantou do meu lado imediatamente e foi sentar do outro lado da sala. Eu fiquei zangada e ao mesmo tempo estupefata porque antes de sentar ao lado dele, eu havia pensando que ele tinha impressão em seu rosto, mas eu decidi sentar para evitar discriminação. Eu pensei...quem aguenta? Essa é só uma das várias provocações que eu enfrento dia ao dia. Eu tenho que sobreviver assim como no caso da flor linda.
            Apesar de provocações, eu fico muito feliz porque fazem parte de um processo de aprendizagem de cultura e língua do ambiente brasileiro. Eu como feijoada, abará, acarajé e outras comidas brasileiras em salvador graciosamente; eu sinto o sabor que me faz lembrar minha raiz africana. Cada dia, eu tiro mina força de fato que estou crescendo e aprendendo. Isso para mim, é uma razão para continuar a viver.
         Eu tenho uma percepção de ‘Desenvolvimento’ que será o resultado de minha estadia aqui. Quando não temos outra opção, à parte de sobreviver, chegamos ao ponto onde nós esqueceremos os espinhos ao redor de nós e florescer como essa flor. Nós humanos somos configurados assim. Vou continuar a sorrir porque estou crescendo bem entre outros humanos que eu vejo como espinhos no meu ambiente de aprendizagem.

        Essa flor deixa os outros e ela cresceu e floresceu. Ela capta tudo lá. Eu também já decidi captar tudo em Salvador: a chuva, o sol, o frio, o quente, a bonita, o feio, então eu ficarei florescendo e crescendo assim.



Omotola Damilola - Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira

ESPAÇO (Crônica)


Tive que chegar para o lado pra dar espaço pra ela. Meu espaço. Agora, nosso espaço. Minha cama é e sempre foi meu lugar, meu abrigo e meu porto seguro, e agora me vejo chegando pro lado para que ela possa deitar comigo. Ela tem nome: Natália. E quando a conheci, eu estava perdida entre as idas e vindas de uma vida cheia de obrigações, sem satisfações. E ela se fez presente, tão presente que deitou na minha cama. Meu espaço. Estava hesitante no início, ela não só bagunçou a minha cama, mas a minha vida. Meus horários, rotinas, viagens e planos, ela deitou na minha cama como se fosse sua, invadiu minha casa e eu gostei disso. Eu permiti isso, eu esperei por isso, eu contei os minutos para isso. Meu espaço, agora nosso espaço sem espaços. 
E pela primeira vez em muito tempo, nasceu pele no meu corpo. Eu estava exposta, nua e minha pele em carne viva, mas a cada toque dela, minha pele se refez, nasceu de novo. Minha pele era meu lençol, minha vida era aquela cama, e seu toque me fez ficar radiante novamente. Entre tantas idas e vindas, camas bagunçadas, pele exposta, ela ficou. Ela se fez presente na minha cama, meu espaço, agora nosso espaço. Ela é variável, mas constante na minha equação, minha pele, é como ar fresco, uma brisa ou um vento de final de tarde. Natália, porque não consigo esquecer seu nome, porque marcou o meu espaço, agora nosso espaço.

Para almas solitárias, mentes vazias, peles expostas, um bom nome é lembrança. Algo que antes eu não tinha: alguém para lembrar. E agora, eu lembro dela todos os dias, porque foi a única que conheceu o meu espaço, foi a única que tocou minha essência, que refez a minha pele. Natália sabe, mas vai descobrindo aos poucos, enquanto eu vou decifrando seu olhar meia-lua, enquanto eu dou espaço para ela deitar. Meu espaço, agora nosso espaço. E ninguém, além de nós, já deitou nessa cama. Natália, aqui registro seu nome para que ela saiba que não mais existe meu espaço, nosso espaço no qual não há espaço entre nós. 


RAFAELA PITTA BAHIENSE - Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira

Presente sempre Presente (Crônica)

 -Rá, tenho uma surpresa, disse minha mãe ao telefone num tom embargado, Fabiano (meu padrasto) vai lhe dar aquele presente que você sempre desejou, mas que lhe disse apenas ser possível presenteá-la quando você pudesse ser responsável por ele. Pensei por alguns segundos e arrisquei: um computador?! Ela sorriu e do outro lado da linha negou a minha interrogativa. Naquele momento só pensava em algo material, palpável, contável estava prestes a entrar no segundo grau, "precisava" de inúmeras novidades para aquela nova etapa estudantil... Era Junho de 2002, já em recesso Escolar, passava dias na casa de meu pai e aquela notícia viria para adiantar o retorno ao meu lar e a curiosidade para me encontrar com o tal presente. Nos dias seguintes insistia para que me adiantasse sobre o tal presente, e cansada de encobrir a verdade minha mãe exclamou: é um cachorro, em breve chegara! Lembro-me, debruçada sobre a janela daquele terceiro andar, ergui meu tronco, arregalei os olhos, e, em alto e bom som, interroguei cética: cachorro ???. Sim, um animal, um cachorro. Eu não imaginaria o quanto alimentar, banhar, conversar, passear, brigar, brincar, ensinar, e tantos outros verbos se tornariam rotinas exaustivas, intensas, aventureiras como foram por bons 15 anos... dormia aos meus pés, me acordava com uma cheirada num rosto descoberto cheio de preguiça e remela. Revelava a cada dia o seu real tamanho... chegou com 30 dias, desmamado e último da ninhada fora rejeitado pela mamãe, pequenino chorava alto. De raça indefinida, possuía pelos brilhantes, negros, olhos castanhos exalando carinho, interesse e compaixão, e um tamanho XGG, por conta desta característica ouvi muitas vezes: Dá esse cachorro; ele não sobreviverá a tão pouco espaço, ele vai morder/machucar vocês, maluquice ter um animal tão grande num ambiente tão pequeno. Eu apenas ria desses conselhos mal colocados, para uma menina que realizava seu sonho de ter um cachorro, e que não se importava no quanto se dedicaria aquele ser, mas via nele a possibilidade de exercitar o amor a outro que não a si mesma, poderia conversar sem ser interrompida, chorar sem ser julgada, amada sem concepções de estereótipo ou similaridades cognitivas humanas de valoração do outro. Sim eram 48 metros quadrados, com um animal babão excessivo, que rapidamente alcançou 20kg e 50cm, correndo atrás das bolinhas, roçando nas almofadas, e pedindo para passear a cada vontade de mijar, porque, sim, ele era educado para fazer as necessidades fisiológicas num ambiente externo ao tal 'apertamento' de conjunto habitacional.
Pai, disse novamente minha mãe ao telefone com meu avô,  sugere um nome para o nosso cachorro. Humm... latim... gostei, vou falar com Rá, acredito q ela vai gostar. Rex, rei em Latim, acredito que combina com ele. Sim combinou, combinava, combina... rei na minha vida, rei da minha vida, estive distante, retornei, contei sobre a importância dele a tantos... segurei seu corpo doente, transportei-o num momento difícil, sua vida e sua morte eu estive ao seu lado. Reencontraremos-nos meu rei!
                                                                     

            Até breve! Amigo



RAELI ASSUNCAO DOMINGOS - Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira

CURIOSIDADE (Crônica)

                                                                    
Eu cresci numa família cristã, uma família que acredita apenas em Deus que mora no céu, nunca vi ou toquei, mas eu era ensinar que Ele existe e é só um superior Deus, eu acredito. Eu também ouvi falado sobre outros deuses que existem no mundo, mas eles, ao contrário do Deus que eu acredito. Eu tinha curiosidade para saber mais sobre esses deuses, mas é um pecado na minha família para falar que você quer saber sobre qualquer deus exceto o Deus que mora no céu. 

Como eu cresci, a minha curiosidade cresceu sobre esses deuses, mas não tinha coragem para pesquisar ou perguntar alguém por causa de medo dos meus pais.  Um dia na escola, falamos sobre várias culturas que existem na Nigéria e nosso professor falou sobre a origem da cada cultura e os deuses por várias culturas, era uma grande oportunidade para mim porque o professor falava também sobre esses deuses que se chamam ORIXÁS na minha tribo que eu tinha interesse. Depois da aula, eu pesquisei sobre os orixás sem medo dos meus pais, com meus resultados pelas pesquisas, conhecia todos que eu queria saber sobre os orixás nunca vi fisicamente, só nos livros.
No entanto, o que eu li tem semelhantes com a história que eu sabia sobre o Deus superior que mora no céu. E agora eu entendi a razão por que meus pais me impediram saber algo sobre os orixás até na igreja também, é muito confuso e precisa muitas questões.
Agora eu sei a diferença porque eu tinha oportunidade de ler sobre os orixás da minha cultura (raiz) e o Deus superior. Eu tenho uma percepção sobre os orixás, conheço os nomes dos orixás diferentes e o que cada um significa. Nós temos vários, mas os mais famosos são OGUN, SANGO, OSUN, OXALA e mais outros.
OGUN é o deus de ferro, e as maiores das pessoas que adoram esse deus são caçadores porque se acreditam que ogun estava um caçador na terra. Então os caçadores oram para ele quando eles vão para caçar. SANGO é o deus de fogo. OSUN é um feminino deus e ela é o deus de água e deus de fertilidade. OXALA que também se chama OBATALA é o deus de luz. Acredita-se que ele é o primeiro que veio de céu.
Finalmente, o culto de orixás é uma religião tradicional no meu país, é uma cultura e tradição principalmente por os povos iorubas e ainda tem iorubas que se acreditam nesses deuses, mas para mim, acho que é uma tradição primitiva e antiga porque nessa geração as pessoas  acreditam mais no Deus superior no céu.


OMOLOLA OLUWATOSIN APOESO – Graduanda em Letras Vernáculas com um Língua Esgrangeira

INDOOR (Crônica)

Não sei se é de hoje ou de muito antes o fato de as portas dos banheiros, no geral de espaços públicos - mais precisamente de escolas ou universidades públicas -, assumirem a função extra de servirem como recurso para exteriorizar pensamentos escritos à caneta. Mas pera lá, pensando assim, à primeira vista, nos parece que a ação de disseminar ideias através das portas de tais locais se configura em um ato totalmente despretensioso. Não é bem assim. O problema relacionado a isso surge justamente porque qualquer um pode expressar qualquer ideia. A verdade é que elas servem, teoricamente, como murais democráticos. Um fato curioso é que, ao utilizarmos um banheiro com as portas “carregadas” de ideias, ao lermos tais ideias, involuntariamente, tentamos traçar o perfil psicológico do enunciador. Mas não nos enganemos, pois se fazemos isso é por pura curiosidade de tentar desvendar quem estaria por trás de tais ideias, do que por qualquer outra intenção.


Se nos interessamos pelas frases contidas ali, podemos separá-las em categorias gerais, sendo que as mais usais, penso eu, são: “DESABAFE AQUI!”; “PREGUE A PALAVRA DE DEUS AQUI!”; “EXPONHA QUALQUER TIPO DE INTOLERÂNCIA AQUI!”; “COMPARTILHE SUAS IDEIAS MACHISTAS AQUI!”... E categorias outras que são menos precisas. Desse modo, não penso que seja loucura imaginar um tempo futuro não tão distante em que, ao entramos nesses espaços - assim como já se observa em iguais espaços de locais privados -, nos deparemos com a antiga “novidade” publicitária: “ANUNCIE AQUI!”. E o mundo finalmente será apresentado mais diretamente - mas nem por isso claramente - ao estrangeirismo indoor, ou à expressão similar, imagino. Até porque: a cultura cria, o mercado se apropria.
Porém, voltando à ideia primeira, não devemos esquecer ainda dos que, não satisfeitos com a “plataforma” porta, estendem suas ideias escritas às paredes dos banheiros. Mas paremos aqui, porque sinto que isso é problematização para outro problematizador. Portanto: CHEGA!

Rosilaine Costa – Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira – Turma 3


Tempo Perdido (Crônica)

Nasce, cresce, trabalha, o tempo passa, morre. Esse é teoricamente ciclo da vida humana e, como uma boa amostra da espécie, estava cumprindo o meu papel.  Em mais um dia dos meus próximos 40 anos, acordei ás cinco horas. Ás cinco e um, chequei meu celular. Tomei meu banho ás cinco e trinta, chequei meu celular ás cinco e trinta e dois, comi rapidamente ás quinze para as seis, dirigi até o escritório ás seis. Perdi tempo, mas, uma hora de engarrafamento depois, cheguei ao escritório. Chequei meu celular ás sete e três. 

Foram nove horas digitando, checando o celular, tomando café preto para aguentar ficar acordado, lendo, recebendo e fazendo ligações e olhando para o relógio, rezando para o dia acabar antes que acabasse comigo. No fim do expediente, como era sexta-feira, tinha que ir ajudar uma filial da empresa em uma ilha perto de minha cidade. Peguei meu carro e fui até o Ferry-boat. Visitaria minha avó, que mora numa ilha perto de minha cidade.
Mais tempo perdido. Trinta e três minutos de engarrafamento, vinte e três minutos de fila para embarcar e, finalmente, entrei no barco. Sentei numa das cadeiras da embarcação, junto de mais seres humanos. Chequei meu celular, assim como todos que podia ver ao meu redor, exceto pelos que assistiam à televisão minúscula disponível.

Treze minutos de viagem e, quebrando o silêncio do lugar, surge um senhor com um violão. O violão estava com as cordas frouxas e sua voz esganiçada começou a embalar o tempo de viagem. Cantava algo de Legião Urbana como se estivesse fazendo o concerto do ano, com mais animação que alguém que ganhou na loteria. Passei a observá-lo, afinal, meu celular morreu (leia-se ficou descarregado). Aos poucos, alguns passageiros passaram a cantar as músicas com ele, outros só continuaram com o celular. Outros, até usaram o celular para registrar o momento pitoresco.
Passou-se algum tempo, não sei quanto, mas a viagem estava acabando. Então, cantor de Ferry-Boat pediu uma contribuição para o trabalho dele, ganhando algumas moedas dos passageiros que se alegraram com a intervenção. Aquele era o trabalho dele? Cantar loucamente para animar um par de pessoas num barco em troca de moedas? Ganhou mesmo na loteria. Enquanto todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, pareceu que ele tinha muito tempo, tinha todo o tempo do mundo.





Lara Rebeca da Mata Santa Bárbara – Graduanda em Letras Vernáculas com uma língua Estrangeira

Vaidade (Crônica)

A vaidade é encantadora. Não me refiro simplesmente à vaidade que te faz trocar de roupa três vezes antes de sair de casa. Esse é apenas um traço da vaidade a qual me refiro. Me refiro à vaidade que me obriga a procurar sinônimos para não repetir tanto a palavra vaidade só neste primeiro parágrafo. Aquela vaidade que parece permear toda relação humana. Ela está nos nossos passos, nos nossos olhares, nas nossas respirações.    
Pensava sobre isso enquanto alguns gelados e derradeiros pingos de chuva caiam sobre a minha cabeça. O ar frio e o céu cinza escuro pareciam ter despertado o meu humilde filósofo interior. Andava sobre a calçada molhada da rua remoendo a desconfortável verdade: eu sou muito vaidoso. Cheguei até a tentar negar o fato até que percebi o meu peitoral estufado e a minha coluna extremamente ereta. Notei como meus passos eram friamente calculados. Para quem eu quero mentir? A vaidade já tomou conta de cada pedaço do meu corpo.
A vaidade me tortura. Puxa com grosseria a memória do aperto de mão constrangedor de ontem. Já emenda com a forma como fiquei sem graça quando encontrei uma velha e distante conhecida num ponto de ônibus semana passada. Chego a balançar a cabeça para afastar esses pensamentos vergonhosos. Sou do tipo que se retorce em agonia apenas com as lembranças embaraçosas. Algumas pessoas me chamariam de tímido. Eu prefiro vaidoso.
A vaidade me acorrenta. Ela faz de mim um escravo da aprovação alheia. Minhas ações são reguladas por inúmeras reações que nunca existiram e que provavelmente nunca existirão. A vaidade me mantém nesta senzala escura, úmida e abafada, longe de tudo e de todos. Uma senzala feia e vaidosa. A vaidade é realmente encantadora.
   
Isac Lima do Nascimento – Graduando em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira - Turma 3
 

Uma Relação Complexa (Crônica)

Após o momento de euforia por ter sido aprovado no vestibular em uma instituição pública, chega o momento de sentar com os pais para ajustar todas as pendências de materiais, rotina, transporte e metas para a vida na Universidade. E então, enquanto o primeiro dia de aula se aproximava e a careca pós-trote iria sumindo em meio aos fios de cabelo que cresciam disformemente devido à falta de piedade dos meus amigos em raspar minha cabeça, a questão do transporte ainda era uma incógnita. Iria de ônibus? Iria de carona? Iria de bike? Tudo isso me preocupava, pois embora já utilizasse ônibus nos anos da escola, ainda tinha receios em andar de ônibus ou até mesmo andar na rua, por conta dos traumas de assaltos sofridos. Já havia sido assaltado na rua, já havia estado em um lugar quando ele foi assaltado, agora só faltava ser assaltado no ônibus, “pronto, nesse ano eu não escapo! Vou desenrolar logo o meu celular do ladrão” eu, pensei. 

Em meio a esses pensamentos, a esperança surgiu ao descobrir que havia um Buzufba que passava literalmente na porta de casa, quase um transporte escolar só que de graça e universitário, e ainda por cima não parava em todos os pontos de ônibus, mas somente nos pontos onde se encontram prédios da UFBA, ou seja, diminuiria bastante a possibilidade de ser assaltado no ônibus. Ufa! Driblei o mau agouro do assalto.
Estava bom demais para ser verdade, quando começaram as aulas e eu comecei a utilizar o Buzufba, provei que realmente é seguro, e que, de certa forma, os ônibus estão conservados internamente, porém, os horários de chegadas e partidas eram uma bagunça! Ônibus previsto para 8:20 da manhã, chega em um dia 9:00 e no dia seguinte 8:10 e isso era um atraso imenso na vida de um estudante sem tempo! Nunca poderia ter certeza se os ônibus atrasariam ou chegariam cedo e o intervalo entre eles é de no mínimo 1 hora. Resumo da ópera: terei que pegar ônibus normal e o mau agouro então riu de mim!  Pelo menos, não seriam todos os dias, pois no primeiro horário das rotas os ônibus são pontuais e em alguns dias não tenho necessidade de pegá-lo. Menos mal. Mas, um dia relatando a alguém sobre minha relação de gratidão e revolta com os Buzufba’s, toda inocência fora tirada quando eu disse animado:
- Foi uma bênção de Deus esse buzufba, pago nada e ainda é seguro, pena que tem esses atrasos que me quebram.
E então essa pessoa respondeu rindo
- Paga nada e é seguro? Você tanto paga como não é seguro. Seus pais pagam impostos que possibilitaram a existência do buzufba, e direto acontecem assaltos, principalmente, pela manhã cedo, no horário em que você pega.
Uma vez li alguém dizer em um artigo que o brasileiro é um povo indeciso, pois ao entrar em um ônibus lotado, pega o único lugar sobrando, seja ele qual for e não reclama. Mas, quando pega um ônibus com vários lugares vazios, é um dilema complexo entre qual seria o melhor lugar a se assentar. Seria o meu caso mais um exemplo de indecisão? Deveria estar contente porque em meio a poucas opções ter o buzufba ou deveria estar insatisfeito com um serviço que é do meu direito, porém é mal prestado? O homem deve ser grato por, em dias difíceis, ter ainda coisas razoavelmente boas ou ele deve ser revoltado por aquilo que tem não ser tão bom quanto lhe é de direito?
Então, essa é a minha relação com o Buzufba, uma relação complexa de gratidão e insatisfação.




SAMUEL BARAUNA DE  FIGUEIREDO – Graduando em Letras Vernáculas com um Língua Estrangeira






Tinha um arco-íris no meio do caminho (Crônica)

Lá pelos meios da cidade de poeira e maresia, construíram um metrô. Não era lá um grande metrô, mas mesmo assim fez com que brotassem viadutos, curvas e estações nas ruas. A tal da cidade não era novata nestes equipamentos, pois era conhecida pelo seu enorme elevador, ali, do ladinho da ladeira, para quem quisesse economizar no chinelo. Logo seus habitantes se acostumaram a mais asfalto, mais pedra, menos azul para quem tem os pés no chão. Afinal, não já tinham visto, dia após dia, o verde sumindo por trás de janelas enfileiradas, crescentes e sempre fechadas? 
Foi seguindo seu caminho de cinza que a cidade não viu o céu abrir. Em sua defesa, o tempo não costumava ser muito decidido em seu território, obrigando os confusos habitantes a dançarem o carnaval fora da época, tirando e colocando seus finos casacos. Mas eis que o sol saiu e trouxe uma companhia sorrateira, um desenho quase esquecido, ligando o não sei onde com o não faço ideia de onde vai dar. O que é que era isso? Ah, menino! É um arco-íris. 

Verdade seja dita: não era lá muito imponente, assim de vista. Se o cidadão não desse uma esticada de pescoço bem dada, era capaz de não ver. Mal se dizia que esta aparição, em um qualquer pedaço de pano ou papel, corria pelas cidades em dia de festa, a avisar que havia orgulho, havia resistência e amor. E quem é que poderia imaginar como uma manifestação daquele que, entre os seus, de pé sobre o dique, com a cobra em sua mão, controlava todos os movimentos e ciclos? Ou que, na mais simples das hipóteses, simbolizava ursinhos gordinhos cheios de carinho para oferecer?
O fato era que o arco-íris era mesmo luz do sol interagindo com água, cientificamente falando. A ciência, no entanto, não era muito popular nas ruas da cidade, que gostava mesmo era de uma boa igreja cheia de deus lhe abençoe. Portanto, quem se atreveu a olhar para cima, em mais um dia de chove-não-chove, viu o que bem quis. Viu orixá, viu parada, viu carnaval, viu criança, viu magia, viu cor. Cor essa que, sem dizer nem um pio, contou um segredo em cada ouvido que encontrou. E sozinha, ali, mais alta que qualquer pedaço de concreto empilhado, reinou por alguns minutos sobre o trabalho de anos, que, muito diferente dela, não queria dizer coisa alguma.


REBECCA R P DA CUNHA – Graduanda em Letras Vernáculas - Turma 3



Verônica decide ter esperança (Crônica)


“Ô, mãezinha. Bate uma foto para mim? Aqui. Bate aqui, de mim. Bem bonita, viu? Você guarda?”. Eis Verônica me abordando pela primeira vez. Senhorinha de 53 anos, exalava o cheiro da nicotina, com alguns poucos dentes na boca, meio maltrapilha, num perceptível esforço de vestir-se bem com roupas já surradas, desgastadas com o tempo. Angelical, sim senhores. Um rosto que se manteve firme e com uma áurea infantil, quase inocente, em meio a tanto descaso e abandono. Suas rugas nos cantos dos olhos se revelavam, emoldurando sua face pueril, quando via a foto salva na tela do aparelho celular. “Olha, mãezinha, como fiquei bonita”. E me pedia que escrevesse seus dados.
Foram mais de duas ou três vezes que eu repeti seu ritual. Pego uma folha de caderno, deve ser uma limpa. Escrevo seu nome completo. Ela me dita “Verônica B... V...”, e pede para que eu não esqueça de pôr os pontos. A rua a que deveria se endereçar o papel é com W. “Começa com W, viu, mãezinha? Escreve aí: Rua Wilson...”, e devo guardar o papel para que os ladrões não o roubem. Me diz que foi abandonada pela mãe ainda cedo, nunca a conheceu – e seus olhos se enchem d’água quando me conta – mas mora com Shirley, que é boazinha e lhe dá comida, mas de vez em quando, lhe rouba o dinheiro que guardou com tanto afinco. “Que amiga é essa, não é, mãezinha?”.
Não sou a única escrivã de Verônica, ela não preza a exclusividade. Pede a tantos outros e é menosprezada, até ridicularizada. Sim, é claro que aprender uma língua e suas tenebrosas declinações é mais importante do que dedicar cinco minutos a uma insana moça de vestido. É claro que você vai desdenhar de sua presença, por que se deve dar atenção ao que nem ouviu ela dizer? Ela interrompe sua gloriosa revisão desesperada de vinte minutos antes de sua prova começar. Por que daria a palavra a ela? Você precisa fazer a sua prova, despejar e reproduzir teorias geniosas de destrambelhados machos de séculos passados. Todos estes que buscam a utópica verdade e conceituação absoluta e atemporal de algo que é tão mutável quanto quem a produz: a literatura. Então você resolve silenciar a sua voz e fazê-la se afastar, na sua mais ridícula contradição, sucumbindo ao sistema acadêmico que você pretende descontruir e criticar na sua próxima produção textual. E agora, José?
Mas que despropósito, que imaginação fértil e que inocência a minha em acreditar quando Verônica diz que é formada em Música e que ganhou uma medalha. Por que deveria acreditar? Os insanos são desconfiáveis, foi o que você me supôs nas entrelinhas.
A insanidade é uma forma de autopreservação; devem ser mais felizes do que nós, inundados de rotinas e responsabilidades, cegos e alienados, envoltos em nossa própria ignorância. Nós, incapazes de praticar a empatia em relação ao outro, ignorando e marginalizando a "insanidade" tão quanto as instituições das quais tanto se cobra, atribuindo-lhe toda a carga de responsabilidade.
Qual responsabilidade você tem, como ser humano, com o outro? Fantasiando ou não suas verdades, os insanos, as Verônicas, envolvidos em suas memórias e rituais, de certo modo estão resguardados deste sistema social, político e (des) humanitário ao qual você faz parte e tenta, entre unhas e dentes, compreender e se desvencilhar. A cada dia vocês abandonam cada vez mais Verônica e tantos outros em situação igual. E de abandono em abandono, é uma folha nova a ser escrita com seu nome. Um ciclo constante, vicioso e cheio de pleonasmo. Ela me disse, certa vez: "Policial é bicho ruim, não é, mãezinha? Não quis tirar foto minha. Disse que deixaria para amanhã. Mas amanhã eu não posso nem estar aqui, não é?".


Jhade Borges dos Santos Gomes – Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira