sábado, 2 de dezembro de 2017

A GAROTA DA RODOVIÁRIA (Crônica)

Lá estava ela, como em todos os outros dias, sempre com o seu fone de ouvido, sempre séria, raramente conversa com alguém. Pela camisa do Joy Division, suponho que seja fã do Ian Curtis. Sempre mascando chiclete. Aparentemente não tem amigos, pelo menos é o que eu percebo nos quinze minutos que a vejo todos os dias.
De um certo modo, eu não conseguia tirar os olhos dela. Era como se eu estivesse hipnotizado. Não exatamente por ela, talvez pela tristeza dela. Às vezes eu penso que ela só esteja indisposta, talvez não goste de conversar logo após acordar. E, talvez, ela seja feliz, extremamente feliz, mas meus olhos a veem daquele jeito, e isso me faz refletir sobre a tristeza, e como ela está presente em todos nós. O meu carro chega, eu entro e a garota continua sentada. Sem despedidas, tenho certeza que a encontrarei novamente, com a tristeza de sempre.
Tão potente quanto a minha inércia, foi a vontade de querer ajudá-la. Eu queria poder dizer que tudo iria dar certo, que ela não deveria ficar triste por não ter um rosto perfeito, que ele era um babaca por não dar valor a pessoa que ela era. Que a melhor saída nem sempre é a mais fácil, que dor de cabeça resolve com dorflex. Caralho! Faria qualquer coisa para que aquela garota não se sentisse tão triste.
No dia seguinte, o celular dela toca. Eu conhecia aquela música, era Nutshell, do Alice in Chains. Que em um dos seus versos dizia ‘’If I can’t be my own. I’d feel better dead’’. Pronto! Aquilo tinha que ser um sinal, pausei a música que eu estava escutando para ouvir o que ela iria dizer. As vezes escutar na voz dela, um pedido de ajuda. Mas ela não disse nada, era apenas o alarme que ela esqueceu de desativar.
Com o passar dos dias, acabei notando que a garota do ponto não estava mais lá. Às vezes me pegava pensando nela, principalmente nos dias chuvosos, e, nesses dias, também pensava se a garota sucumbira ao desejo de tirar a própria vida. Se bem que eu preferiria não saber, me sentiria culpado.
Até que outro dia, ela aparece no ponto de novo. Fiquei bastante feliz por vê-la viva. Já a dava como morta. Ela vestia rosa, diferente do preto que costumava usar e, dessa vez, me pareceu um pouco (bem pouco) menos triste. Acabei sendo promovido naquele mesmo dia e fui transferido para outro local de trabalho. Nunca mais peguei o ônibus naquele ponto. Eu não vi aquela garota novamente, e nunca, nessa vida ou em outra, eu saberei o porquê de tamanha tristeza. Talvez eu estivesse louco, talvez ela já não existisse ou nunca tivesse existido. Talvez fosse apenas um reflexo de mim.


Felipe Castro, graduando de Letras, Turma 3

Um comentário:

  1. Achei muito interessante a crônica do Felipe. Acho que ela se encaixa na crônica poema, não só porque linguagem dele é lírica, como também porque induz uma reflexão sentimental interna do leitor, que é fruto da intimidade do autor consigo mesmo. Ele conseguiu transmitir as suas sensações perante à menina.

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