sábado, 2 de dezembro de 2017

O gesto (Crônica)

Era um sábado de manhã, onze horas, e eu passava na frente de um bar Estava usando roupas sujas, rasgadas, manchadas e o rosto coberto de poeira. Eu havia acabado de acordar, tinha dormido no ponto de ônibus e estava faminto. De imediato, percebi, que um grupo de jovens estava comendo o que parecia ser um bolo muito saboroso. Me deleitei quando vi aquela imagem deliciosa do bolo de chocolate com cobertura de caramelo. Eles haviam acabado de bater parabéns para o amigo – que atendia pelo nome de Jefferson. Não resisti ao ímpeto de me aproximar e os pedi: “Senhores, sou morador de rua, tenho 23 anos e estou morto de fome. Por favor, vocês poderiam me dar algum dinheiro para que possa tomar um café da manhã digno ao menos uma vez no mês?” Não contive os meus olhos e os atirei no bolo, lindo, perfeito, tão próximo e tão distante. Nunca tinha comemorado um aniversário nas minhas longas vinte e três primaveras de existência, nunca pude dispor de algo assim por falta de recursos. Incrivelmente, meu aniversário tinha passado haviam três dias – acho que, por isso, que eu deveria estar tão fascinado com aquele bolo que nunca pude ter – e creio que meus olhos passaram aquela mensagem, porque no segundo seguinte em que respirei, o aniversariante, Jefferson, se levantou e deu a metade restante do bolo para mim. Não as contive, as lágrimas rolaram pelas minhas bochechas sujas. As pessoas ao redor, incialmente atônitas, se recompuseram no momento seguinte, levantaram-se e aplaudiram com amor, com força, com veemência e admiração. Naquele dia, eu aceitei o bolo e fui convidado para me sentar à mesa com eles. Nunca soube exatamente o que motivou aquele garoto a me convidar a participar do aniversário, talvez um aniversariante reconheça o outro, ou talvez não. Talvez os aniversários sejam mais que uma data comercial, e estejam aí para isso, relembrar as pessoas dos valores da vida. Sensibilizá-las com essa comemoração e as fazer lembrar do significado do altruísmo, da benevolência, do amor. Aquele momento me inspirou tanto, que hoje, aos 57 anos, formado, graduado, casado e pai de dois filhos, ainda lembro e escrevo com afeto sobre aquele dia, que fez do meu cotidiano pragmático e massacrante algo novo, uma nova possibilidade, que abriu os meus olhos à novos horizontes. Horizontes que me fizeram transcender a mim mesmo e a minha realidade de desigualdades sociais que me oprimia e me acuava. Desigualdade essa que fazia com que pessoas, como o Jefferson, tivessem 4 bolos de aniversário no seu dia.E eu, pobre, menino de rua, ganhasse safanões da polícia por dormir no ponto de ônibus. Mesmo assim, fui inspirado por aquele gesto do Jefferson e, como uma águia, consegui transpor as montanhas de desigualdades que me cercavam. Eu venci, graças ao bolo, graças ao Jeferson, graças ao gesto. 

2 comentários:

  1. Eu me emocionei ao ler essa crônica, os detalhes expressados me fizeram imaginar a emoção e felicidade de Jefferson ao apreciar o bolo e ainda mais quando ele ganha a metade do bolo. Ficou maravilhoso esse texto.

    ResponderExcluir
  2. Emocionante! Um texto lindo, que faz com que o leitor reflita sobre desigualdade, empatia, entre outras coisas. A estrutura e a imagem concordam, fazendo o texto ficar ainda mais belo.

    ResponderExcluir