sábado, 2 de dezembro de 2017

ESPAÇO (Crônica)


Tive que chegar para o lado pra dar espaço pra ela. Meu espaço. Agora, nosso espaço. Minha cama é e sempre foi meu lugar, meu abrigo e meu porto seguro, e agora me vejo chegando pro lado para que ela possa deitar comigo. Ela tem nome: Natália. E quando a conheci, eu estava perdida entre as idas e vindas de uma vida cheia de obrigações, sem satisfações. E ela se fez presente, tão presente que deitou na minha cama. Meu espaço. Estava hesitante no início, ela não só bagunçou a minha cama, mas a minha vida. Meus horários, rotinas, viagens e planos, ela deitou na minha cama como se fosse sua, invadiu minha casa e eu gostei disso. Eu permiti isso, eu esperei por isso, eu contei os minutos para isso. Meu espaço, agora nosso espaço sem espaços. 
E pela primeira vez em muito tempo, nasceu pele no meu corpo. Eu estava exposta, nua e minha pele em carne viva, mas a cada toque dela, minha pele se refez, nasceu de novo. Minha pele era meu lençol, minha vida era aquela cama, e seu toque me fez ficar radiante novamente. Entre tantas idas e vindas, camas bagunçadas, pele exposta, ela ficou. Ela se fez presente na minha cama, meu espaço, agora nosso espaço. Ela é variável, mas constante na minha equação, minha pele, é como ar fresco, uma brisa ou um vento de final de tarde. Natália, porque não consigo esquecer seu nome, porque marcou o meu espaço, agora nosso espaço.

Para almas solitárias, mentes vazias, peles expostas, um bom nome é lembrança. Algo que antes eu não tinha: alguém para lembrar. E agora, eu lembro dela todos os dias, porque foi a única que conheceu o meu espaço, foi a única que tocou minha essência, que refez a minha pele. Natália sabe, mas vai descobrindo aos poucos, enquanto eu vou decifrando seu olhar meia-lua, enquanto eu dou espaço para ela deitar. Meu espaço, agora nosso espaço. E ninguém, além de nós, já deitou nessa cama. Natália, aqui registro seu nome para que ela saiba que não mais existe meu espaço, nosso espaço no qual não há espaço entre nós. 


RAFAELA PITTA BAHIENSE - Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira

4 comentários:

  1. Gostei bastante da crônica, a relação entre a imagem e o relato da autora ficou muito boa. Mostra que uma imagem, como a cama desarrumada, possui muito mais informação do que se pode ver.

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  2. Uma crônica muito boa, intimista. A imagem dialoga bastante com a parte escrita, trazendo informações que me inspiraram de certa forma.

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  3. Apesar de ter uma estrutura mais como conto, é interessante pensar esta crônica como poema devido ao seu ritmo, lirismo, intimidade entre autor e leitor e por quase conseguir criar versos.
    O que mais gostei é como a autora conseguiu mostrar com intensidade os seus sentimentos

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  4. A crônica é coerente com a imagem. Ela se encaixa no estilo poema, pois contém o lirismo e a intimidade que a Rafaela passa permite que o leitor sinta as sensações que ela quer passar.

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