sábado, 2 de dezembro de 2017

Tinha um arco-íris no meio do caminho (Crônica)

Lá pelos meios da cidade de poeira e maresia, construíram um metrô. Não era lá um grande metrô, mas mesmo assim fez com que brotassem viadutos, curvas e estações nas ruas. A tal da cidade não era novata nestes equipamentos, pois era conhecida pelo seu enorme elevador, ali, do ladinho da ladeira, para quem quisesse economizar no chinelo. Logo seus habitantes se acostumaram a mais asfalto, mais pedra, menos azul para quem tem os pés no chão. Afinal, não já tinham visto, dia após dia, o verde sumindo por trás de janelas enfileiradas, crescentes e sempre fechadas? 
Foi seguindo seu caminho de cinza que a cidade não viu o céu abrir. Em sua defesa, o tempo não costumava ser muito decidido em seu território, obrigando os confusos habitantes a dançarem o carnaval fora da época, tirando e colocando seus finos casacos. Mas eis que o sol saiu e trouxe uma companhia sorrateira, um desenho quase esquecido, ligando o não sei onde com o não faço ideia de onde vai dar. O que é que era isso? Ah, menino! É um arco-íris. 

Verdade seja dita: não era lá muito imponente, assim de vista. Se o cidadão não desse uma esticada de pescoço bem dada, era capaz de não ver. Mal se dizia que esta aparição, em um qualquer pedaço de pano ou papel, corria pelas cidades em dia de festa, a avisar que havia orgulho, havia resistência e amor. E quem é que poderia imaginar como uma manifestação daquele que, entre os seus, de pé sobre o dique, com a cobra em sua mão, controlava todos os movimentos e ciclos? Ou que, na mais simples das hipóteses, simbolizava ursinhos gordinhos cheios de carinho para oferecer?
O fato era que o arco-íris era mesmo luz do sol interagindo com água, cientificamente falando. A ciência, no entanto, não era muito popular nas ruas da cidade, que gostava mesmo era de uma boa igreja cheia de deus lhe abençoe. Portanto, quem se atreveu a olhar para cima, em mais um dia de chove-não-chove, viu o que bem quis. Viu orixá, viu parada, viu carnaval, viu criança, viu magia, viu cor. Cor essa que, sem dizer nem um pio, contou um segredo em cada ouvido que encontrou. E sozinha, ali, mais alta que qualquer pedaço de concreto empilhado, reinou por alguns minutos sobre o trabalho de anos, que, muito diferente dela, não queria dizer coisa alguma.


REBECCA R P DA CUNHA – Graduanda em Letras Vernáculas - Turma 3



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