sábado, 2 de dezembro de 2017

A Árvore (Crônica)

Toda semana, cinco vezes por semana, eu faço o mesmo caminho ao entrar e sair da faculdade. Vou por trás do refeitório e atravesso o estacionamento que há ali, andando junto às árvores.
Duma vez, eu resolvi – não sei bem o motivo, mas resolvi – contornar o refeitório pelo outro lado. E nesse caminho desconhecido me deparei com uma árvore estranhíssima.
Quase sem folhas na copa, os frutos pareciam bolas de madeira – madeira oca, suponho, pois pendiam do alto sem pesar no fino galho que os sustentava. Pior: a copa no topo da árvore era superada em tamanho e mistério por uma segunda copa, embaixo, quase ao pé do tronco.
Era difícil dizer se a segunda “copa” fazia parte da árvore ou se era uma trepadeira. Era espinhenta com uns cachos de ricos gomos amarelos e umas poucas flores rosas (talvez vermelhas) enfiadas entre os espinhos. Eu contei só três flores, fantásticas, selvagens, numa economia que só fazia crescer o extraordinário do quadro.
Os galhos da possível trepadeira eram mais como cordas que galhos. Eles se projetavam ondulantes em todas as direções, como os tentáculos mecânicos do Dr. Octopus (aquele vilão do home maranha).
A visão com que me deparei era, enfim, algo de outro mundo.
(A foto impressiona, mas não lhe faz justiça, leitor. Meu monstro, temperado pelo momento da primeira visão, era belo e terrível, como um dragão ou um grifo.)
Desde criança eu sempre amei árvores. Eu amava o pé de tamarindo e o pé de figo da casa da minha avó, e o abacateiro bem no meio do quintal da minha tia em Feira de Santana. Mas amava também todas as árvores (só as palmas e os coqueiros é que não me chamavam a atenção, exceto quando o vento os fazia curvar perigosamente na beira da praia).
Poucas vezes vi, no entanto, uma árvore tão insólita quanto aquela do outro lado do refeitório e, em mim, a surpresa de me ver subitamente transportada para um outro mundo se converteu em maravilhamento.


T. Pedreira de Oliveira Britto, graduanda de Letras, Turma 3






5 comentários:

  1. O texto está ótimo. Os detalhes expressados pela autora me fazem sentir o trajeto percorrido por ela, sendo assim , a estrutura de crônica pode ser percebida em todo o caminho narrativo do texto.

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  2. Adorei o texto. Está bem escrito e a autora se expressou tão bem que me fez lembrar da minha experiência com esta árvore, muito parecida com a relatada no texto. A estrutura e a foto estão de acordo com a proposta.

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  3. O detalhamento feito pela autora me permitiu formar uma imagem perfeita da árvore em minha mente, ótima escrita e me transmitiu a sensação que ela sentiu ao ver a árvore, ou seja, conseguiu cumprir um dos principais objeitos da crônica: o de conectar-se ao leitor.

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  4. A narração dos detalhes está impecável. Posso fechar os olhos e formar, com muita facilidade, a imagem no meu imaginário. A crônica está tão rica em detalhes que a foto se faz dispensável. rsrs Mas a imagem está bem tirada e conversa com o texto. Adorei!

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  5. A narração condiz bem com a foto, e é interessante como o autor consegue transpor suas lembranças e sensações com poucos parágrafos. É possível encaixá-la no gênero de crônica-conto

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