sábado, 2 de dezembro de 2017

Verônica decide ter esperança (Crônica)


“Ô, mãezinha. Bate uma foto para mim? Aqui. Bate aqui, de mim. Bem bonita, viu? Você guarda?”. Eis Verônica me abordando pela primeira vez. Senhorinha de 53 anos, exalava o cheiro da nicotina, com alguns poucos dentes na boca, meio maltrapilha, num perceptível esforço de vestir-se bem com roupas já surradas, desgastadas com o tempo. Angelical, sim senhores. Um rosto que se manteve firme e com uma áurea infantil, quase inocente, em meio a tanto descaso e abandono. Suas rugas nos cantos dos olhos se revelavam, emoldurando sua face pueril, quando via a foto salva na tela do aparelho celular. “Olha, mãezinha, como fiquei bonita”. E me pedia que escrevesse seus dados.
Foram mais de duas ou três vezes que eu repeti seu ritual. Pego uma folha de caderno, deve ser uma limpa. Escrevo seu nome completo. Ela me dita “Verônica B... V...”, e pede para que eu não esqueça de pôr os pontos. A rua a que deveria se endereçar o papel é com W. “Começa com W, viu, mãezinha? Escreve aí: Rua Wilson...”, e devo guardar o papel para que os ladrões não o roubem. Me diz que foi abandonada pela mãe ainda cedo, nunca a conheceu – e seus olhos se enchem d’água quando me conta – mas mora com Shirley, que é boazinha e lhe dá comida, mas de vez em quando, lhe rouba o dinheiro que guardou com tanto afinco. “Que amiga é essa, não é, mãezinha?”.
Não sou a única escrivã de Verônica, ela não preza a exclusividade. Pede a tantos outros e é menosprezada, até ridicularizada. Sim, é claro que aprender uma língua e suas tenebrosas declinações é mais importante do que dedicar cinco minutos a uma insana moça de vestido. É claro que você vai desdenhar de sua presença, por que se deve dar atenção ao que nem ouviu ela dizer? Ela interrompe sua gloriosa revisão desesperada de vinte minutos antes de sua prova começar. Por que daria a palavra a ela? Você precisa fazer a sua prova, despejar e reproduzir teorias geniosas de destrambelhados machos de séculos passados. Todos estes que buscam a utópica verdade e conceituação absoluta e atemporal de algo que é tão mutável quanto quem a produz: a literatura. Então você resolve silenciar a sua voz e fazê-la se afastar, na sua mais ridícula contradição, sucumbindo ao sistema acadêmico que você pretende descontruir e criticar na sua próxima produção textual. E agora, José?
Mas que despropósito, que imaginação fértil e que inocência a minha em acreditar quando Verônica diz que é formada em Música e que ganhou uma medalha. Por que deveria acreditar? Os insanos são desconfiáveis, foi o que você me supôs nas entrelinhas.
A insanidade é uma forma de autopreservação; devem ser mais felizes do que nós, inundados de rotinas e responsabilidades, cegos e alienados, envoltos em nossa própria ignorância. Nós, incapazes de praticar a empatia em relação ao outro, ignorando e marginalizando a "insanidade" tão quanto as instituições das quais tanto se cobra, atribuindo-lhe toda a carga de responsabilidade.
Qual responsabilidade você tem, como ser humano, com o outro? Fantasiando ou não suas verdades, os insanos, as Verônicas, envolvidos em suas memórias e rituais, de certo modo estão resguardados deste sistema social, político e (des) humanitário ao qual você faz parte e tenta, entre unhas e dentes, compreender e se desvencilhar. A cada dia vocês abandonam cada vez mais Verônica e tantos outros em situação igual. E de abandono em abandono, é uma folha nova a ser escrita com seu nome. Um ciclo constante, vicioso e cheio de pleonasmo. Ela me disse, certa vez: "Policial é bicho ruim, não é, mãezinha? Não quis tirar foto minha. Disse que deixaria para amanhã. Mas amanhã eu não posso nem estar aqui, não é?".


Jhade Borges dos Santos Gomes – Graduanda em Letras Vernáculas com uma Língua Estrangeira

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Nossa! Fiquei realmente tocada.Já fui abordado diversas vezes por Verônica e parei para refletir o porque dela estar sempre ali. A imagem, o texto e o título representam bem está pessoa. Apesar da constante rejeição, ela segue sonhando. O trocadilho/analogia com a obra de Paulo Coelho, Veronika Decide Morrer, é bem interessante. A jovem que tinha "tudo" decide acabar com a própria vida, essa senhora sem "nada" vivifica cada momento de sua vida. Quem viveu mesmo?

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  3. Ironia, subjetividade, crítica a um problema social. "Veronica decide ter esperança" é um texto que incomoda, destroi e reconstroi, além de relatar um problema geral, ainda que sob uma única personagem. Seria possível então colocá-lo como crônica-reportagem.
    A autora também escreve muito bem

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